O dia do enroscamento

Depois de pegar a ração dos meus cães no centro da cidade, entrei em uma rua de volta para casa, deixando o interessante centro da cidade de Santos.
O centro de Santos sempre me encantou com suas construções antigas que eu amo e sempre torcí para que fosses restauradas;  as putas andando durante o dia e fazendo coisas de gente ordinariamente normal com as suas barrigas flácidas e aureolas do peito saindo para fora do sutiã vermelho encardido. Os botecos com piso de cimento hidráulico, e a raiva que me dá quando vejo que algum destes lugares troca o piso pelo ridículo lajotão branco.
Bem, saindo do centro, um menino empina pipa nessa rua mega movimentada, e o meu carro por ser alto, a linha da pipa se enrosca na minha antena e levo a pipa embora…Fiquei estudando uma maneira de parar o carro naquela rua pequena porém muito movimentada, até que escuto o grito da criança:
– Para caralho!
Ouvindo isso, piso no acelerador e vou embora; penso:  uma criança sem educação dessa não merece a pipa de volta, que se foda.
Olha para o lado e meu namorado está segurando o riso, pergunto : – do que vc está achando graça? Ele escancara o riso e parece um menino falando: – puta moleque burro, olha onde ele foi empinar pipa , quando começou a subir…
– Eu pergunto polidamente: – será que eu paro?
– Não, ainda bem que foi seu carro que pegou, se é um motoqueiro tinha ficado sem pescoço.
Convencida de que salvei uma vida fui embora com a pipa amarela sendo puxada no ar.
No transito , um motoqueiro para e desenrola a pipa do carro. Agradeço e continuo meu caminho.

Após o almoço, desço a escada rolante e o meu vestido , um dos meus prediletos, longo, azul, se enrosca na escada rolante sendo dragado para baixo; uma leva de seguranças chega para desligar a escada e uma mulher começa a puxar meu vestido desesperada.
Quando conseguem reverter a escada e tirar meu vestido, ele está carcomido e cheio de graxa. Na hora lembrei da porra da pipa e agradecí pelo carma ter se resolvido tão rápido.